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29 ago

Corpos Tristes

Você já pensou que, de certa forma, o seu corpo não lhe pertence?

Ele pertence aos especialistas que o reformam ou lhe dizem o que fazer com ele. Você aceita exercícios padronizados, de forma obediente, sem questionar se lhe caem bem, se lhe servem, no seu caso especifico. Exercícios estes, que você faz por obrigação, sem nenhuma consciência do que está fazendo. E, na maioria das vezes, mesmo sem gostar ou sentir qualquer prazer em realiza-los.
O seu corpo pertence a cultura em que você está inserido, que dispõe dele ao sabor dos modismos e apelos midiáticos.
Pensando bem, nós não evoluímos muito, em tribos mais primitivas existiam certos padrões estéticos corporais, como no caso de escariações e cortes na própria pele, ou mesmo tendências de alargar as orelhas ou a boca. Hoje este cenário não é muito diferente, se a TV e a mídia divulgam que o bacana é ser extremamente magr@ e musculos@, todos procuram seguir o script.
Possivelmente, você nem desconfie do universo de possibilidades e recursos existentes em seu próprio corpo.
Você apenas o utiliza sem nenhum critério, cuidado e consciência. Você dá muito pouco a ele, dispõe dele como bem quiser. Na verdade, nem se dá conta que ele existe, só quando lhe falta.

Já reparou como muitas vezes você fica sentado em posições desastrosas por horas? E depois reclama por não saber o motivo de tanta tensão muscular.

O seu corpo pede relaxamento, pede alongamento, pede aprofundamento, mas quem diz que você é capaz de perceber isso? Quando vai ficando mais velho, este descaso vai cobrando o seu preço. E você só percebe à medida que começa a envelhecer. E acha normal.
A partir deste ponto, o seu corpo vai estar cada vez mais desgastado, maltratado e doente.
O seu corpo é resultado de uma pressão cultural dominante, voltada para valores racionais e materiais que o submete e escraviza. Sendo assim, habitar o próprio corpo é o primeiro passo para a liberdade.
Vivemos um excesso de atividade cerebral, uma forma mecânica e racional de se entender o mundo. Somos escravos de uma mente acelerada, que está sempre no controle. E assim, nos desconectamos do momento presente. A vida passa a ser apenas uma sequência de tarefas para que possamos atingir determinados resultados. Neste processo, perdemos o nosso equilíbrio, nos desconectamos de nós mesmos e, consequentemente, da energia vital do universo, esta energia que dá vida a tudo, a qual chamamos de Deus.

O corpo do qual falamos é de outra ordem: um corpo sagrado, natural, equilibrado e profundo. Intimamente ligado à mente, às emoções e ao espírito e que se transforma no principal agente de liberdade e sabedoria. O corpo é a forma mais simples e genial de se acalmar a mente, o “eu”, responsável por nossos desequilíbrios e angústias.

O Santo Graal da felicidade e do equilíbrio estava bem onde você menos esperava: em seu próprio corpo.
Já percebeu como nós estamos cegos e alheios às coisas mais básicas e importantes da nossa vida e da nossa natureza?

O que poucos se deram conta é que resolveríamos a imensa maioria dos nossos problemas apenas cuidando do nosso próprio equilíbrio corporal, mental, emocional e fisiológico. Coisas básicas que todo mundo já conhece e está cansado de escutar.
Essa realidade é a matéria prima do meu trabalho há muitos anos. Aos 5 anos de idade, me lembro de assistir meu pai trabalhando e acompanhar os treinamentos da sua equipe de atletismo. São minhas primeiras memórias de infância e alguns destes ensinamentos eu guardo até hoje.

Meu pai, Nuno Cobra, tornou-se um dos maiores nomes do treinamento físico e mental no Brasil. Isto se deve a enorme revolução que ele propõe em sua visão do corpo e do treinamento. Com este grande mestre aprendi toda a base do meu conhecimento.

Eu costumava ouvir algumas pessoas se consultando com ele. Elas chegavam vomitando problemas de todas as ordens e eram convincentes em afirmar que a vida estava um verdadeiro caos. E para estas pessoas ele calmamente falava:

– Estes problemas não existem, o único problema é que você não “está” você. Durante seis meses, vá ao encontro de si mesmo, priorizando-se, habitando seu corpo e buscando o seu equilíbrio. Daqui a seis meses você me conta se esses problemas ainda existem.

As nossas prioridades e estilo de vida não colaboram para o nosso equilíbrio pessoal e saúde, pelo contrário.
Mas será que a busca de equilíbrio e autoconhecimento é um foco importante em nossa vida?
É isso que aprendemos em nosso meio social e cultural, em nossa educação? É isso que nos estimula a mídia do consumo? Ou é o contrário? Que devemos sacrificar tudo, vender a própria alma em busca de dinheiro, sucesso e fama?

A pergunta que não quer calar: Esta busca realmente traz felicidade?
Hoje, ao invés do sonho de economistas como Adam Smith, que previam um cenário onde no século 21 as pessoas trabalhariam muito menos e seriam mais felizes, o que assistimos é exatamente o contrário. A lógica e o ritmo alucinante do mercado de trabalho atropelam tudo.
A grande verdade é que estamos sempre ativos e trabalhando, seja estudando nas horas vagas para nos mantermos atualizados e competitivos, seja levando trabalho para casa. Com o computador, a nossa própria casa virou uma extensão do trabalho. Todos já estão bem treinados. Explorar a si mesmo e trabalhar além do limite humano tornou-se uma condição inerente para quem almeja sucesso e felicidade. É o que nos dizem.
Não é necessário o uso de muito convencimento para submeter e escravizar. O recurso é mais sutil. O que se vende é o auto sacrifício como uma virtude. Em uma sociedade de super-homens, super empresários e atletas de alta performance, não fazer parte disso é assumir-se um fraco, a quem falta disciplina e força de vontade.
Hoje, com o conceito de gestão de empresas focado em metas e cobranças de resultados, certificados, controles, bônus e toda forma de espremerem ao máximo os funcionários, o mundo se acelerou.
Este sistema de gestão alimenta a insônia no mundo. Com o Foco apenas na performance e no resultado, torna-se uma praga que ‘buga’ o sistema orgânico e o deixa cada dia pior.
Sim. O mundo está insone e sem tempo. As pessoas não têm tempo e nem energia para fazer uma simples caminhada. Elas comem Fast food, bebem refrigerante, consomem alimentos saturados, químicos e industrializados de uma forma indiscriminada.
O mundo sofre de uma crise crônica de ansiedade, e sendo assim, come de forma apressada, sem nem pensar no que está comendo, pois está preso ao celular.
O mundo está doente, esta obeso, flácido, sem energia e sem tônus, pois se movimenta cada vez menos. O mundo toma remédios, pois tomar remédios é a opção mais rápida e mais prática para continuar sobrevivendo.
Resumindo é isso: nós não estamos mais vivendo, nós estamos apenas sobrevivendo. Vejo isso diariamente em meu trabalho, onde me encontro com perfis heterogêneos, que de certa forma são até homogêneos, já que quase todos dormem mal, são sedentários, estão ansiosos, depressivos e sem energia, entre dezenas de outros desequilíbrios.
Outro dia, atendi um aluno com uma história curiosa e, infelizmente, bastante comum. Ele, aos 28 anos, já tinha quase todos os cabelos brancos, não dormia, era sedentário e se alimentava muito mal. Além disso, sofria de ansiedade e depressão. Trabalhando com tecnologia da informação, ficava no computador até as 1h ou 2h da manhã, pois tinha que levar trabalho para casa, para dar conta dos prazos e metas que lhes eram impostos. No outro dia acordava as 7h da manhã e começava tudo de novo.
Que sistema de vida é esse, que inventamos? Ele claramente, não estava vivendo estava apenas, “male e male”, sobrevivendo. Aos trancos e barrancos, da forma como lhe era possível.
Li recentemente que a ansiedade já é o terceiro motivo de afastamento do trabalho, custando 200 milhões aos cofres públicos anualmente e que o auxílio doença para transtornos mentais e emocionais aumentaram (pasmem!) 20 vezes nos últimos dez anos. (Fonte Elemídia) Só para ter uma ideia do impacto do estilo de vida na saúde pública, o Brasil gastou, em 2015, cerca de 72 bilhões de reais com a diabetes e suas complicações. (Revista saúde, ed. 410)
Mas, será que as pessoas sabem que a nossa performance cai 60% quando dormimos mal? Será que as empresas sabem disso? Será que elas sabem que agindo da forma como estão agindo estão matando a criatividade e a produtividade do seu funcionário? E eu me pergunto – até quando faremos tudo desta maneira?
É este mundo que queremos para os nossos filhos? Será que as pessoas estão anestesiadas, estão dopadas? Ou é só falta de consciência mesmo? Quando você vai acordar deste pesadelo? Ou você está achando normal ver tanta gente doente, desequilibrada, cansada, estressada e deprimida? Quando vai acordar para o fato que sem o seu corpo, sem a sua saúde, você é alguém pela metade? Que você é apenas um ser insone que sobrevive, longe da sua verdadeira capacidade, vitalidade e potência?
Dormir mal, por si só, inviabiliza qualquer visão positiva da vida.
No final, acho que é isso, nós ainda estamos dormindo.
Os corpos se movem como sonâmbulos, vivem uma vida remediada, triste e impotente.
É preciso despertar, viver de corpo presente enquanto ainda estamos vivos.

* Este texto é uma colagem e síntese de trechos que estão nos primeiros capítulos do meu livro: “O músculo da alma, a chave para a sabedoria corporal”.